Akete

O que é o Akete

Akete é o menor e mais agudo dos três tambores que compõem o conjunto Nyabinghi, a percussão sagrada do movimento Rastafari. Também conhecido como repeater (repetidor) ou kete, o akete é tocado com as mãos em um estilo improvisacional vibrante, sendo responsável por liderar o ritmo e carregar a energia espiritual das cerimônias rastafáris. Seu som agudo, percussivo e ágil dialoga com os dois outros tambores do conjunto, criando a base rítmica fundamental do reggae roots.

Os Três Tambores Nyabinghi

O ensemble Nyabinghi tradicional é formado por três tambores que se comunicam entre si:

  • Bass drum (tambor baixo) — o maior, tocado com baqueta acolchoada, marca o pulso lento e profundo
  • Funde — tambor médio que mantém o ritmo constante e estável, geralmente em compasso ternário
  • Akete (repeater) — o menor e mais agudo, improvisa por cima dos outros dois, conversando livremente com o pulso

Essa estrutura tripartite reflete princípios espirituais Rastafari sobre estabilidade, ordem e improvisação criativa.

Origem do Akete

O akete tem raízes profundas na percussão africana, particularmente nas tradições religiosas Kumina da Jamaica, que por sua vez derivam de tradições espirituais do Congo trazidas pelos africanos escravizados. O nome “kete” provavelmente vem de “akete”, um tambor cerimonial de origem Akan da África Ocidental. Os Rastafaris adaptaram esses tambores ancestrais às suas cerimônias religiosas a partir dos anos 1940, quando o pioneiro Count Ossie sistematizou o conjunto Nyabinghi como conhecemos hoje.

Count Ossie e a Codificação do Nyabinghi

A figura mais importante na difusão do akete e do conjunto Nyabinghi foi Oswald “Count Ossie” Williams (1926–1976), tamborileiro Rasta que fundou uma comunidade em Wareika Hills, Kingston. Foi ele quem ensinou e organizou os ritmos Nyabinghi para artistas como The Skatalites, The Wailers e centenas de outros músicos. Seu trio com Mystic Revelation of Rastafari documentou definitivamente o som dos tambores no álbum Grounation (1973).

Como o Akete é Tocado

O akete é tocado sentado, com o tambor apoiado entre as pernas ou no chão entre os joelhos. As características técnicas incluem:

  • Mãos descalças — sem baquetas, apenas as palmas e dedos
  • Tons abertos e fechados — combinação de batidas no centro e na borda
  • Improvisação constante — o tocador responde ao espírito da cerimônia
  • Diálogo com os outros tambores — escuta ativa do bass e do funde

O Papel Espiritual do Akete

Nas cerimônias Nyabinghi (ou “binghi”), o akete não é apenas um instrumento musical. Ele cumpre função ritual e espiritual:

  • Canal de oração — o ritmo é considerado uma forma de meditação ativa
  • Conexão ancestral — liga os Rastas atuais às raízes africanas
  • Resistência a Babylon — toca em oposição aos ritmos comerciais ocidentais
  • Acompanhamento dos chants — suporte para os cânticos sagrados Rastafari

Influência do Akete no Reggae Moderno

Os ritmos Nyabinghi tocados no akete são a base ancestral de todo o reggae moderno. Quase todos os artistas roots reggae incorporam tambores Nyabinghi em suas gravações:

  • Bob Marley & The Wailers — usam tambores Nyabinghi em faixas como “Rastaman Chant” e “Time Will Tell”
  • Burning Spear — incorpora o akete em quase toda sua discografia
  • The Abyssinians — “Satta Massagana” é construída sobre fundamentos Nyabinghi
  • Israel Vibration, Steel Pulse, Culture — todos usam o akete como elemento espiritual

O Akete no Brasil

No Brasil, particularmente nas comunidades Rastafari de Salvador, Rio de Janeiro e São Luís, os tambores Nyabinghi têm presença crescente em rodas de groundation e cerimônias espirituais. Grupos brasileiros estudam diretamente com mestres jamaicanos e africanos para preservar a autenticidade do toque do akete. No reggae brasileiro, especialmente no reggae gospel, a sonoridade do akete aparece em arranjos de bandas como Adar Purim, conectando o gênero às suas raízes percussivas sagradas.